Verao
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No princípio, era o sonho... Eu brincava de ser professora riscando no portão do meu quintal as aulas que eu sonhava dar... Cadernos velhos espalhados pelo chão eram alunos... No imaginário cada um tinha um nome... Empilhados na parede, ficavam os livros que eram, justamente, os tijolos descascados daquela humilde casa da infância. Casa que acolhia um dos mais ricos brinquedos de uma criança, a imaginação. Dentro dos livros-tijolos moravam fadas, duendes, príncipes, princesas... Moravam palavras, muitas palavras...E, cada palavra, na solidão do livro fechado, aguardava um olhar, uma carícia, uma fantasia que a vestisse de som, de ritmo pela magia do contar... Com o encantamento dos meus sete anos, eu acolhia sons, dons, sílabas musicais e repetia cada palavra procurando sua musicalidade no encontro de outra palavra sonoramente próxima. E, aos poucos, as palavras foram abrindo páginas de desejos de acalentá-las, de inaugurá-las em meu ser ainda aprendiz do poder de sedução que cada nova palavra despertava. Arriscava sempre um encontro entre elas na busca de uma rima, de um namoro poético. Na ingenuidade do meu eu-menina, rimar era abraçar palavras, era aproximar seus destinos musicais. Para isso, eu precisava conhecê-las, acolhê-las em minha imaginação, acordá-las do sono em sua morada oficial, o Dicionário. Como eu gostava de visitar esse país das palavras, esse abrigo de semântica fartura. Convidava uma, duas, três, várias palavras para viajarem, voarem, saírem de suas ordenadas páginas para o território livre do meu imaginário. Tenho, nestas lembranças, a força do vigor primeiro da minha paixão pelo universo das letras, das palavras, da inesgotabilidade dos seus sentidos. Cedo, bem cedo, abri as portas de um compromisso prazeroso com as palavras, com os livros, com a leitura e fui ampliando essa relação de amor, de necessidade, de cumplicidade. Aprendiz das palavras, eu lia meus caminhos, minhas descobertas, minhas fantasias e minha realidade nos livros. Onde quer que eu fosse, as histórias acompanhavam-me, sentia-me sempre como uma passageira embarcada num poema, num romance, num conto.
Lembro-me, com saudades, das férias de julho, quando viajava para Carangola, em Minas Gerais, e passava quinze maravilhosos dias na Fazenda do meu tio Francisquinho e da tia Encarnação. Levava em minha bagagem de sonhos, o desejo de experimentar a paisagem verdejante dos contos de fadas no descampado terreno que se abria naquela Fazenda de Café. O verde habitava o meu olhar do amanhecer ao entardecer. Não havia luz elétrica, somente o sol acendia a paisagem e iluminava o meu caminho de descobertas, de experiências mágicas. E tudo me encantava, com meu olhar contemplativo visitava cada árvore, cada flor, cada planta, cada movimento vegetal. A natureza, como um livro, abria suas frondosas páginas e eu lia a semente, o caule, as folhas, os galhos, o fruto. Eu arvorizava-me deitada no tapete verde daquele território de leituras sumarentas.

A linguagem das plantas registrava em meus sentidos o cheiro, o gosto, o sabor das palavras escorrendo da minha boca nomeando cada objeto em seu destino de letras, de sílabas, de som, de semântica vegetal. Ao admirar uma flor, por exemplo, avizinhava-me da sua efêmera presença fazendo-me hóspede da sua cor, da sua textura, do seu cheiro, da sua estética de flor no mundo verde. Ao penetrar na intimidade de uma flor, de uma árvore, de uma vida vegetal, eu recolhia a poesia de tudo que me surpreendia e plantava em meu ser sementes de um futuro em formação. E, assim, brincando de espiar a natureza, de contemplá-la de um modo especial, fui descobrindo a magia das minhas primeiras experiências como investigadora do mundo, das coisas, das pessoas. Assim como brincando de ser professora, de contar histórias, de pesquisar e namorar palavras, fui experimentando o gosto de uma vocação de raízes profundas e missionárias. Essa paixão pelo magistério, pelas palavras, pelos livros foi crescendo e amanhecendo desejos de novos rumos. Sei que tenho nessas horas de sonho da infância a revelação mais séria da minha vida.
Hoje, o quintal dos antigos sonhos mudou-se para as salas de aula da Faculdade de Letras da UFRJ, onde os alunos buscam em mim respostas para as difíceis indagações do mundo. Aqueles livros-tijolos das paredes do quintal das brincadeiras do passado cimentaram a construção do meu itinerário de leitora. Logo, a paixão pelo livro foi firmando raízes tão profundas no meu projeto de vida que resolvi ampliar o traçado dos meus ideais e me lancei numa nova travessia: escrever histórias para crianças. E, assim, pude revisitar sonhos que a menina coloriu nos tijolos da parede de sua infância em construção. Quem pressagiou esse meu novo caminho foi meu filho Tiago que, aos três anos de idade, pediu uma história e escolheu o título, A cama que não lava o pé.

Estávamos em 1990 e, nesta época, acolhi o desejo do meu filho escrevendo uma história que atendesse ao seu momento de vida. Pelo título anunciado percebi logo a intencionalidade de tal pedido. Como ele estava fazendo xixi na cama, a sugestiva denominação A cama que não lava o pé revelou-se como um pedido literário terapêutico na travessia emocional desse problema. Na verdade, ao lançar-me na escrita desta história, vislumbrei uma via poética de resgate a um tempo mágico ancorado em meu Ser: a minha infância. Diante do papel em branco, revisitei o passado e fiz hóspede a menina desabrigada do mundo adulto. Reencontrei a sensibilidade daquela menina sonhadora, investigadora de palavras e de coisas e refiz o percurso daquele imaginário tão rico de idéias e ideais em construção. A partir daquele momento abriu-se uma trilha de inauguradora projeção: escrever histórias para o meu filho. A cama que não lava o pé é o alicerce de um novo tempo em meu viver. A construção do texto, com um repertório de ditos populares, recolhidos da minha infância, aponta para uma tendência futura em minha obra literária. Escrevi a história numa tarde e, no dia seguinte, li para o Tiago e pedi que ele fizesse as ilustrações. Exemplar de confecção doméstica, este livro abre as páginas de outras histórias que se seguiram tendo como motivação acontecimentos do dia-a-dia do meu filho. Ele tinha medo de ventania e eu criei o Seu Vento soprador de histórias, onde o personagem Ventania é um cirandeiro porta-voz de algumas belas cirandas do nosso cancioneiro popular. Quem planta vento colhe inventos e as histórias se multiplicaram.
Até o Tiago completar onze anos, em 1998, eu criava as histórias para a fruição única e exclusiva do meu especial leitor. Mas... meu filho cresceu e a necessidade de escrever contemplando o imaginário da infância também cresceu em mim. Logo compreendi que para continuar a minha produção teria que buscar novos leitores. E, assim, resolvi assumir um compromisso profissional com a literatura infantil. Comecei, então, a procurar um editor interessado em publicar os meus textos. Encaminhei o livro A cama que não lava o pé para alguns editores e inaugurou-se um tempo de espera, de esperança, de perseverança. O sonho de ver aquelas histórias criadas no aconchego do meu lar serem publicadas e alcançarem outras crianças-leitoras, na diversidade de suas leituras, hospedou-se em meu coração, ansioso por uma resposta afirmativa. Mas... nada acontece de uma hora para outra, tudo tem seu tempo de maturação. Até que um editor se pronunciasse favoravelmente, o tempo foi passando e a esperança ora crescia, ora desaparecia... No movimento oscilatório desse sentimento de espera, continuei escrevendo para atender a uma necessidade que havia se criado dentro do meu ser tão sensível a esse imaginário. Até que um dia recebi uma ligação de São Paulo, do editor Vitor Maia, da Editora DCL, comunicando-me a tão desejada notícia da publicação do meu primeiro livro. A alegria visitou-me de forma muito especial naquele fevereiro de 1998. Além da publicação do livro A cama que não lava o pé , ele pediu uma coleção que começasse com este título e incluísse em um dos objetivos da mesma, o uso de provérbios. Foi assim que nasceu a Coleção "Com uma história na mão" que, hoje, reúne cinco volumes contemplando não só os ditos populares relativos a parte do corpo humano que cada título aborda, mas que visa também, em cada volume, a revisitar quadros de um artista do Modernismo brasileiro. Minha paixão pelas artes plásticas do Modernismo remonta aos tempos da adolescência quando tive acesso à fascinante história desse revolucionário período das artes na cultura brasileira. Ao reler algumas telas, pela palavra, em cada volume, satisfaço a um desejo antigo de homenagear esse imaginário da pintura moderna.
E, assim, de livro em livro, de história em história, vou revivendo sonhos, projetando desejos, acordando a menina dos tempos de outrora. Hoje com treze livros publicados e dois no prelo, visitando meus leitores nas escolas, recebendo cartas e e-mails tão carinhosos de tantas crianças espalhadas por esse Brasil tão diversificado, sinto-me feliz e cada vez mais apaixonada por essa trajetória inaugurada na infância no exercício de ler nos tijolos-livros as histórias que eu imaginava impressas na alvenaria do meu quintal.
11/02/2012
com Francisco Gregório Filho. Dias 28 de janeiro, 4 e 11 de fevereiro. Clique para ver o banner.
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